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“A pandemia não acabou”: historiador Luiz Alves fala sobre Covid Longa ao Café História

O pesquisador do OHS Luiz Alves Araújo, que tem como um de seus temas de pesquisa a Covid Longa, concedeu entrevista à jornalista Cristiane d’Avila referente às recentes pesquisas, no campo das ciências médicas e sociais, sobre esta síndrome. Cristiane é jornalista, doutora em Letras e também pesquisou a pandemia de Covid-19 no âmbito da comunicação pública.

Foto: Carolina Vaz.

Partindo de intenso diálogo ocorrido entre profissionais de saúde, vítimas da Covid Longa, familiares de vítimas da Covid e pesquisadores de áreas diversas, ocorrido em Seminário Testemunho em 2024, Alves ressaltou a importância de reconhecer a existência da Covid Longa, apesar de tantos obstáculos.

Para além dos aspectos biológicos, como sintomas aparentes da Covid e agravamento de outras doenças, o pesquisador ressaltou a importância de olhar para aspectos sociais. O trauma das famílias que perderam entes queridos, a vida social e profissional de quem convive com os sintomas, o estágio educacional de adolescentes que estudaram remotamente, e até mesmo a memória coletiva sobre as negligências do poder público. Confira um trecho abaixo.

A pandemia de Covid-19 não acabou”

Celebramos em 12 de março o Dia Nacional em homenagem às vítimas da Covid-19. Nesta entrevista ao Café História, Luiz Alves Araújo Neto, pesquisador do Observatório História e Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (OHS/COC/Fiocruz), fala sobre as sequelas da Pandemia e da emergência de uma nova doença, a Covid Longa.

Em novembro de 2024, o OHS realizou o seminário “Covid Longa no Brasil: invisibilidade e cuidado de uma síndrome pós-viral”. Mais do que debater as consequências da pandemia, o evento reuniu ativistas da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico), especialistas em saúde pública, médicos de família, cientistas sociais, pesquisadores da Fiocruz e de diversas universidades federais, com um objetivo central: compreender os desafios científicos, clínicos, sociais e políticos envolvidos no reconhecimento, diagnóstico e manejo da Covid Longa no Brasil.

“Desde 2021, quando o termo Covid Longa foi cunhado, diferentes sugestões de termos foram elaboradas, como síndrome pós-Covid e condições pós-Covid. A definição de nomes atribui sentido a um conjunto muito amplo de sintomas e agravos que foram ampliados após o evento epidêmico”, explica o historiador, coordenador do seminário.

Nesta entrevista, Alves analisa as consequências da invisibilidade da nova doença, que acomete milhões de pessoas no Brasil e no mundo, e o papel dos historiadores nesse processo de reconhecimento da nova síndrome.

“A pandemia continua não somente como trauma e memória, mas também como um processo contínuo. Discutir o cuidado e a invisibilidade da Covid Longa no Brasil é, também, tensionar narrativas sobre o fim da epidemia, mobilizar ações de memória e contra o esquecimento de um processo que teve impactos tão profundos e graves em âmbito coletivo e individual. A rigor, é demarcar que a pandemia de Covid-19 não acabou”.

O evento reuniu profissionais de diversos campos sociais que estão pesquisando as consequências da pandemia de Covid-19. O que significa o termo?

Covid Longa foi um termo cunhado por grupos de pacientes sofrendo com uma variedade de sintomas que surgiram após episódios de Covid-19 aguda, ou seja, quando os sintomas se manifestam rapidamente, podendo ser mais graves ou mais leves, principalmente associados a fadiga, dor crônica e confusões mentais de diferentes ordens, posteriormente nomeadas de brain fog, névoa cerebral, em inglês.

Ainda em 2020, nos primeiros meses da pandemia, começaram as discussões acerca das possíveis sequelas da Covid-19, principalmente relacionadas aos sistemas respiratório e circulatório. Nesse âmbito, formularam-se controvérsias científicas referentes à natureza da Covid Longa, se seria uma nova doença, ou um conjunto de sequelas associadas à infecção aguda.

Essa discussão possui diferentes implicações, da produção do conhecimento à experiência das pessoas doentes. Envolve elementos científicos, políticos, sociais e culturais complexos.

Por isso é preciso nomeá-la?

Sim. A definição do conjunto de sintomas de uma nova doença traz maior reconhecimento social do sofrimento das pessoas, possibilita a formalização de demandas legais, como licenças e aposentadorias, permite a organização de linhas de cuidado específicas no sistema de saúde e estabelece categorias para a produção de dados e indicadores que permitem melhor compreensão do impacto dessa doença, entre outros aspectos.

Nomear uma doença é reconhecer sua existência e, no limite, o adoecimento das pessoas. O historiador estadunidense Charles Rosenberg afirma, no artigo Disease in History: Frames and Framers, que as doenças não existem até que concordemos que elas existam – percebendo-as, nomeando-as e respondendo a elas.

Leia a entrevista completa aqui.

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