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O novo coronavírus e o desafio da prevenção

04/04/2020

Por Luiz Alves Araújo Neto

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O momento que vivemos é delicado e dramático. A infecção pelo novo coronavírus, o Covid-19, há algumas semanas foi declarada uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e já impõe cifras assustadoras entre casos diagnosticados e notificados e mortes. Em situações epidêmicas como esta, análises mais amplas tornam-se exercícios complicados, seja pelo envolvimento que temos com o cenário (todos estamos emocionalmente instáveis, mesmo aqueles em negação), seja pela dinâmica e instabilidade que marcam um processo dessa natureza.

O contexto sociocultural também traz características específicas à pandemia: pós-verdades e negacionismos de toda ordem estão na pauta do dia (Oreskes, 2019); tensões geopolíticas típicas de períodos de guerra já se colocam há algum tempo; a conectividade associada às redes sociais (que hoje funcionam de forma bastante distinta, por exemplo, da época da pandemia do influenza H1N1); o enfraquecimento da confiança nas instituições e em seus mediadores (principalmente a mídia), todos esses fatores constituem o processo pandêmico vivido.

Entretanto, se o cenário confuso impõe condições complexas ao esforço analítico, também ressalta o impacto de algumas questões. O fracasso de diretrizes (neo)liberais para sistemas de saúde; o efeito cruel das desigualdades e iniquidades sociais nas condições de saúde da população; o predatismo do capitalismo financista, disposto a qualquer coisa para manter seu lucro, mesmo negar uma pandemia. Esses são exemplos de temas que podem ser analisados com o processo pandêmico ainda em curso. Aqui, gostaria de explorar outro ponto que tem chamado muita atenção: a dificuldade em realizar, efetivamente, prevenção.

Qualquer profissional, gestor ou pesquisador no campo da saúde rapidamente destacará a importância da prevenção para que a infecção pelo novo coronavírus seja gerenciada de forma a manter o sistema de saúde funcionando, o tão falado “achatamento da curva” (Roberts, 2020). Mensagens de isolamento chegam por todas as direções e com diversos recursos linguísticos: memes, orientações sanitárias ilustradas, gráficos, hashtags em publicações (como a #staythefuckhome). De modo similar, muito se fala sobre a importância da higienização do corpo, dos objetos e dos ambientes. Ainda assim, observa-se grande resistência às medidas indicadas pelas instituições de saúde, o que tem sido colocado na conta do negacionismo à pandemia e ao discurso médico-sanitário. Será que é “só” isso?

Particularmente, observo que este momento tem mostrado algumas das dificuldades em efetivas práticas preventivas, que vão além da questão contextual comentada no começo deste texto, mas dizem respeito a problemas estruturais da saúde no Brasil (neste texto vou me restringir ao cenário brasileiro) e a como, neste ponto da pandemia, a infecção pelo coronavírus apresenta desafios ao conceito corrente de prevenção mobilizado pelo campo da saúde. Vamos por partes.

1. Prevenção e o coronavírus

Cotidianamente, costumamos lidar com prevenção como o ato de evitar algo. Isso é indicado tanto pelas definições de dicionários, “conjunto de medidas ou preparação antecipada (de algo) que visa prevenir (um mal)”, quanto pelo uso de um dos ditados populares mais comuns, “é melhor prevenir do que remediar”. Entretanto, na prática, prevenção significa muito mais do que isso, tanto no nosso uso cotidiano quanto nas definições técnicas do campo da saúde.

Para entrar nisso, preciso falar muito rapidamente sobre a “história natural da doença”. Esse termo designa o processo biológico de desenvolvimento de uma doença, desde antes do adoecimento propriamente dito (o “período pré-patogênico”) até a recuperação de uma pessoa após os tratamentos (Leavell & Clarke, 1976). A compreensão dessa “história natural” permite que, para cada doença, sejam traçados certos percursos esperados, o prognóstico, levando aos cálculos de quanto tempo uma pessoa normalmente demora para se recuperar ou morrer, de uma infecção virar doença etc.

Também a partir dessa definição, para cada parte do desenvolvimento de uma doença, existem ações preventivas que evitam seu avanço. Só daí, prevenção torna-se algo dividido em níveis. A prevenção primária consiste em evitar a doença, o sentido mais utilizado. A prevenção secundária ocorre quando o adoecimento já começou, mas está no seu início; as principais medidas são o diagnóstico precoce/rápido seguido de tratamento. A prevenção terciária pode ser a reabilitação após o tratamento, para prevenir retornos e sequelas, ou mesmo ações paliativas para retardar ao máximo a morte.

As ações mais faladas por todos para prevenir a infecção pelo coronavírus, isolamento e higienização, se enquadram na prevenção primária, e aí começa nosso problema. Estamos acostumados, no cotidiano, a associar saúde à assistência médica, ao uso de tecnologias, medicamentos, trabalho de especialistas, entre outras coisas; porém, saúde é muito mais do que isso (Araújo Neto, 2019). Prevenção primária, por exemplo, diz respeito às condições de vida de uma pessoa ou população (os “determinantes sociais da saúde”), nível de escolaridade, estabilidade financeira e emocional, acesso a serviços básicos etc. (Marmot, 2016). Como exigir isolamento de pessoas que habitam com seis, sete, dez pessoas em um cômodo? Como demandar higiene de pessoas que sequer têm acesso à água potável?

Além disso, prevenção primária também envolve a chamada “proteção específica”, que é melhor representada pelas vacinas. Várias doenças graves e infecciosas tiveram nas vacinas importantes métodos preventivos; para citar algumas: raiva, poliomielite e sarampo. No momento de escrita deste texto (fins de março), não há uma vacina para o coronavírus (e o fato de ser um vírus dificulta a estabilização de uma vacina, devido às possíveis mutações).

Então, a prevenção primária torna-se difícil tanto pelas péssimas condições de vida da maioria da população quanto pela ausência de uma proteção específica. Mesmo possuindo boa efetividade, o isolamento e a higienização variam por grupo social e por indivíduo; funcionam para “achatar a curva” do sistema (que é estratégia mais importante a ser tomada agora), mas não para evitar o alastramento da infecção.

A prevenção secundária, apesar de menos falada como termo, é mais familiar à nossa relação com a saúde e a medicina. Temos grande familiaridade com testes diagnósticos, e demandamos do Estado (devido à natureza do nosso sistema de saúde) o fornecimento da maior quantidade de testes possível. Por se tratar de uma infecção respiratória com sintomas similares outras doenças, a infecção pelo coronavírus demanda tecnologia médica para o diagnóstico, e tecnologia é cara, e vivemos no Brasil, um país com profundas desigualdades sociais e regionais. Um país que, nos últimos anos, tem vivenciado a destruição do Sistema Único de Saúde por diferentes governos, com cortes brutais no orçamento, desmantelamento de programas e estratégias que seriam cruciais para este momento, como o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), que lida exatamente com as ações “na ponta”. O problema, então, não é somente conseguir a tecnologia, mas também a distribuir pela rede e colocá-la para funcionar em um país de tamanho continental e com desigualdades continentais.

A prevenção terciária é algo que ainda temos discutido pouco, pois ainda estão sendo mapeados os efeitos da infecção pelo coronavírus em pessoas recuperadas, mas já são indicadas sequelas pulmonares e, inclusive, redução da expectativa de vida média por paciente. Diferente do que certos atores do campo político têm falado, não é só uma “gripezinha”. De toda forma, já temos o indicativo de uma doença aguda (que acomete uma pessoa e rapidamente mostra seus efeitos) com marcas de doença crônica (cujos efeitos têm duração mais longa, o que demanda mais cuidados; logo, mais atuação do sistema de saúde). Isso significa que, mesmo após o momento pandêmico/epidêmico, a infecção pelo coronavírus continuará sendo um problema grave.

2. A prevenção como um desafio

Além dos problemas colocados pela pandemia em questão e pelas questões conjunturais e estruturais do sistema de saúde, existem outros aspectos que devem ser levados em consideração para encarar o desafio de fazer prevenção. Vou enumerar alguns, mas certamente haverá outros que não terei notado:

  • Linguagem e comunicação

Um problema sério a ser enfrentado pelas instituições de saúde e ciência é a comunicação com o público. Já está um tanto claro que não adianta simplesmente apresentar dados que comprovem o efeito positivo do isolamento e da higienização na redução das mortes e dos casos pela infecção. É preciso, ao campo da saúde, perceber que o não cumprimento de recomendações não se trata somente de “desinformação”, “má compreensão”, “loucura” ou “ignorância”. Por mais duro que seja, é preciso entender que as noções referentes a saúde e doença são negociadas no cotidiano (Aronowitz, 1998), as pessoas interpretam e dão sentido a partir de suas experiências próprias.

Ignorar as subjetividades e exigir que as pessoas “tenham bom senso” não vai resolver a situação; execrar os pastores neopentecostais, por mais abominável que seja a prática de manter rituais coletivos em pleno momento de isolamento, não resolverá. Comunicação em saúde torna-se cada vez mais algo essencial para pensarmos a eficiência de ações preventivas. Além disso, não é como se estivéssemos sendo eficazes também na visão mais tradicional de informar o público. Quantos textos cifrados, pouco claros, e mesmo imprecisos estão circulando com a autoria de pessoas bastante qualificadas do campo da saúde?

  • Educação e cultura

Seguindo na ideia de que as concepções sobre saúde e doença são negociadas, envolvem as experiências individuais e cotidianas, também precisamos levar em conta as diferentes formas culturais que coexistem no Brasil. Por mais apelativo e necessário que seja, como se transforma subitamente a prática de dar dois beijinhos, abraçar e apertar mãos em distanciamento? Como se transforma um dinâmica social amplamente associada à rua, caso do Rio de Janeiro, por exemplo, em isolamento social? Um profissional de saúde lendo poderá até gritar considerando um absurdo: “Mas é preciso isolamento para conter a infecção!”. Claro, não estou negando isso. A questão é que a comunicação com o público e a realização de práticas preventivas devem levar em consideração os aspectos culturais locais, o território, os determinantes sociais da saúde. O mesmo princípio, o isolamento e a higienização, mudam drasticamente de sentido entre a Alemanha e o Brasil; entre o Rio de Janeiro e uma cidade no interior do Ceará.

Não menos importante, existe o problema da educação. Como, de repente, exigir “consciência sanitária” (seja lá o que isso signifique) de uma população que, em sua maioria, não tem acesso à educação e, quando o tem, não possui educação para a saúde como algo regular e constante no currículo. Um exemplo ilustrativo do problema educacional é o fato de que muitos de nós, inclusive pessoas com alta qualificação acadêmica, não sabe sequer lavar as mãos! Isso indica como o problema educacional é central, e não se limita a acesso ou qualidade, mas também a formato e projeto.

3.Prevenindo o medo

Se o cenário é pouco favorável, tanto pela instabilidade de alguns enunciados científicos quanto pela dificuldade em efetivamente realizar prevenção, pelo menos podemos colocar alguns aspectos nos quais vale investir. O isolamento social e a higienização, além de “achatar a curva” (de novo, a coisa mais importante a ser feita agora), possuem um efeito psicossocial que não pode ser ignorado (Aronowitz, 2015). Estando em casa – mesmo sofrendo com o distanciamento – temos um maior senso de segurança quanto à infecção, bem como higienizando as mãos. Essas coisas nos dão senso de controle sobre a ameaça do vírus, e isso é fundamental neste momento caótico. Investir nisso serve, por exemplo, para rebater discursos mais conformistas como “ah, todo mundo vai pegar isso aí mesmo”, assim como lembrar que a saúde mental é central nesse processo pandêmico.

Claro que esse efeito psicossocial do isolamento depende de que haja isolamento, o que pode mudar rapidamente durante o processo epidêmico, principalmente devido à guerra argumentativa e retórica travada entre uma lógica economicista de “salvação dos empregos” e a proteção da saúde coletiva.  A epidemia/pandemia acabará, eventualmente, e teremos de lidar com os seus vários efeitos. Diminuir ao máximo os estragos é não só necessário, mas parte de uma responsabilidade com o bem coletivo, dever de todos. Que possamos também, no pós-epidemia, lidar com questões estruturais da nossa sociedade, reorganizando estruturas e repensando práticas.

Referências

Araújo Neto, Luiz Alves. Prevenção do câncer no Brasil: mudança conceitual e continuidade institucional no século XX. Tese de doutorado. Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz). Rio de Janeiro, 2019.

Aronowitz, Robert. Making sense of illness: Science, Society and Disease. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

Aronowitz, Robert. Risky Medicine: our quest to conquer fear and uncertainty. Chicago: University of Chicago Press, 2015.

Leavell, Hugh & Clark, Gurney. Medicina Preventiva. São Paulo: McGrew-Hill, 1976.

Marmot, Michael. The Health Gap: the challenge of an unequal world. London: Bloomsbury, 2016.

Oreskes, Naomi. Why Trust Science? Princeton: Princeton University Press, 2019.

Roberts, Siobhan. Flattening the Coronavirus Curve. The New York Times. Published: March 11, 2020. Disponível em: https://www.nytimes.com/2020/03/11/science/coronavirus-curve-mitigation-infection.html

Sobre o autor

Luiz Alves Araújo Neto é Historiador, bolsista de pós-doutorado pelo PPGHCS, com bolsa da FAPERJ (Pós-doutorado Nota 10), e membro da equipe do Observatório História e Saúde.

Como citar este texto

ARAÚJO NETO, Luiz Alves. O novo coronavírus e o desafio da prevenção. Site do Observatório História e Saúde – COC/Fiocruz, 04 de abr. 2020. Disponível em: https://ohs.coc.fiocruz.br/posts_ohs/o-novo-coronavirus-e-o-desafio-da-prevencao/. Acesso em: XX de xxx. de 20XX.

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